| Espiritualidade
e homossexualidade na maioria das vezes não conseguem coexistir, levando a
pessoa aos limites do sofrimento. O desespero recai obviamente no cerne da questão: Meu
Deus, porque eu tive que nascer assim? Christian De la Huerta tinha que pagar
uma penitência quando ajudava a sua igreja como coroinha todos os domingos num vilarejo
em Cuba. Gay, ele não achava que sua religião e sua sexualidade andavam em direções
opostas, mas teve que declinar. O rapaz que tinha como seus únicos referenciais
Tarzã e santos católicos, resolveu abandonar sua convicção religiosa, certo de que a
casa de Deus não poderia acolhê-lo como sendo homossexual.
Mais tarde mudou-se para Miami com
a família e tornou-se escritor. Hoje aos 29 anos ele fez um longo caminho de redescoberta
espiritual, e a vida dele passa a ganhar sentido, em suas palavras.
Em todo este processo, que certamente muitos de nós passamos, há um momento em que nos
sentimos extremamente sozinhos e sofrendo em silêncio. O caso de Christian não é
isolado.
A vida de Anna França,
que desde os 9 anos viveu num convento em Belo Horizonte, serve de exemplo. Descobrindo-se
terrivelmente apaixonada pela madre-superiora de codinome Heloar, Anna teve que passar
maus momentos para compreender este amor que era um enigma. Em seu livro, "Outros
Hábitos" ela descreve com nitidez este momento: "Sofro sem que ninguém esteja comigo quando choro, sem que ninguém compartilhe minha dor." A
sorte começou a virar para seu lado, e a madre-superiora entregou-se a este amor. Elas
viveram juntas 4 anos e tiveram algumas noites de amor, em encontros sempre regados a
hortênsias e martinis. Considerada uma doença entre as freiras, a homossexualidade de
Anna foi garantida pela amante que dizia: 'Se perguntarem alguma coisa, mande que venham a
mim. "
Anna largou o convento há 10 anos, Heloar foi para os Estados Unidos e agora vive em
Amsterdã. Hoje elas ainda se falam ao telefone e Anna conquistou um novo amor.
Recentemente, o Cardeal Winning, do
Grupo Católico da Escócia, declarou que a homossexualidade é nociva ao ser humano e
constitui uma barreira para a felicidade. Em réplica, Elton John disse que além de ser
muito feliz em ser gay, alertou sobre a ignorância da Igreja neste assunto, alegando que
é por este motivo que estão perdendo fiéis.
Não precisa ir mais longe, o Papa
João Paulo II, que vinha tentando impedir a realização da Parada Gay de
Roma, condenou a marcha ocorrida, como uma "ofensa aos valores cristãos" e
disse que a Igreja Católica considera os atos homossexuais como "contra a lei da
natureza". A homossexualidade não é pecado, ao seu ver, é simplesmente um fardo a
ser carregado por pessoas que devem manter a castidade.
Há religiões que estão avançando em
seu modo de lidar com a homossexualidade, há grandes vitórias como a aprovação da
união homossexual, mas ainda resiste a grande maioria conservadora e castradora. Os
exemplos se multiplicam, e a expansão de novas igrejas e seitas religosas se vêem às
voltas com o mesmo problema, que vêm envoltos em diferentes línguas ou dogmas. Em meio a
isto tudo, pobres mortais se vêem no mesmo embate: como conciliar minha
espiritualidade com minha sexualidade?
Ficamos pensando: será que é papel da igreja resolver esta questão, ou o
problema reside na falta de aceitação da sexualidade no íntimo da pessoa?
Uma série de questionamentos tomam conta do homossexual e acabam fazendo com que ele seja
obrigado ou a largar suas convicções ou a reprimir de fato sua orientação. Mas
será que não existe um outro meio de debelar este conflito?
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