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especial.gif (2082 bytes) Curar o que não é doença?

Investigação - A terapia de "cura" homo, fomentada por grupos religiosos no Brasil

24/10/00 GLSPLANET.COM

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Se já é pecado ser gay, mais ainda sair do armário para conquistar direitosIntervalo para o almoço: onde buscava me aprofundar no perfil dos homossexuais  que se "tratavam" ali.  Conheci um cara de São Paulo que se encantou comigo, e não parava de repetir que tinha me adorado. No final, chegou a pegar no meu braço, repetindo que  "não estava 100% curado" - isto é, podia ter uma "recaída" a qualquer momento! Notei que a maioria já tinha um histórico religioso, até mesmo antes de se saber homossexual, o que até para um leigo, significava passagem com nota 10 pelo processo de culpa ministrada pelo tratamento:  culpa, arrependimento, infelicidade, e busca de "cura". Com quem? Com os religiosos batistas que além de protetores do mal, passam a ser a única fonte de informação pois ministram uma verdadeira lavagem cerebral nos crentes.

Os Batistas lutam contra a lei de parceria civil de homossexuaisPassado o almoço, novamente a banda (relaxamento, para a informação penetrar melhor), e em seguida a palestra mais esperada: O doutor José Maria Nascimento Pereira, psiquiatra da Universidade Federal do Ceará. José Maria tem 72 anos, 42 de profissão, e segundo seus depoimentos, 42 anos em desfavor à medicina: "O homossexualismo é um engano da alma. O homossexualismo é um sintoma de uma enfermidade em nossa personalidade". Para se ter uma idéia,  ejaculação precoce, impotência, frigidez e "homossexualismo", estão todos no mesmo barco, sob o rótulo de "sintomas de uma personalidade que não se resolveu".  Nota: O Conselho Federal de Medicina  proibiu terminantemente qualquer médico ou psiquiatra de sequer tentar curar a homossexualidade ou tratá-la como enfermidade, pois desde 1985, foi desconsiderado o artigo 302.0, da classificação internacional, que a tratava como doença, sob pena de perder a licença para o exercício da profissão. Exatamente da mesma forma que o Conselho Federal de Psicologia proíbe os psicólogos de promoverem a tal "cura" de algo que não é doença.

(Segundo fonte da Universidade Federal do Ceará, o psiquiatra José Maria Nascimento Pereira lecionava no Centro de Ciências da Saúde de onde aposentou-se em 27 de março de 1990) 

Para finalizar os testemunhos. Pessoas que tiveram sua vida transformada pela religião e que pregam que é possível mudar. É nessas horas que surgem aqueles que, como eles dizem, "chegaram ao fundo do poço". Soropositivos, viciados em drogas, alcólatras, garotos de programa. E então, a palavra de Jesus "os curou"... Mas, e os heteros também não vão ao fundo do poço?

parsp20.jpg (11333 bytes)Augusto Andrade
, ativista do grupo Estruturação, de Brasília, identifica isso como mais uma manifestação de preconceito da sociedade. "Quando uma pessoa está em dúvida em relação à sua identidade sexual, e vai a um psicólogo legal, que não é homofóbico, ele vai conduzir a pessoa para a real inclinação dela, sem traumas nem culpa. Quem força a barra para mudar os outros devia ser preso.  Eles se utilizam das fraquezas das pessoas!". Para ele, o destino da maioria é virar ex-ex-gays.


Terminam os testemunhos, mais música, oração e discursos inflamados. O pastor faz um apelo para as pessoas que se sentiram mudadas de alguma forma, que sentiram o "toque de Deus", para se aproximarem do palco e darem o testemunho.

Tudo termina às 6 horas da tarde, em uma grande oração, com todos se abraçando e se beijando. Quem me abraçou bem forte foi meu recém-amigo paulista. Pegou o meu e-mail e repetiu que tinha me adorado, olhando nos olhos...

Contou que teve um namorado, e que amava muito o cara, mas não era amado. Sofreu muito por amor, por não ser correspondido. Se sentia usado, maltratado. Ele associou uma experiência mal sucedida com o fardo de ser homossexual, que pena... Mas a pergunta permanece? Até quando vai se permitir que estes grupos conservadores, que se aproveitam de momentos de carência emocional de pessoas sensíveis, gays e lésbicas, disseminem a culpa e os ideais homofóbicos?

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