Intervalo para o almoço: onde buscava me
aprofundar no perfil dos homossexuais que se "tratavam" ali. Conheci
um cara de São Paulo que se encantou comigo, e não parava de repetir que tinha
me adorado. No final, chegou a pegar no meu braço, repetindo que "não
estava 100% curado" - isto é, podia ter uma "recaída" a qualquer
momento! Notei que a maioria já tinha um histórico religioso, até mesmo
antes de se saber homossexual, o que até para um leigo, significava passagem com nota 10
pelo processo de culpa ministrada pelo tratamento: culpa, arrependimento,
infelicidade, e busca de "cura". Com quem? Com os religiosos batistas que além
de protetores do mal, passam a ser a única fonte de informação pois ministram uma
verdadeira lavagem cerebral nos crentes.
Passado o almoço, novamente a banda (relaxamento,
para a informação penetrar melhor), e em seguida a palestra mais esperada: O doutor José
Maria Nascimento Pereira, psiquiatra da Universidade Federal do Ceará.
José Maria tem 72 anos, 42 de profissão, e segundo seus depoimentos, 42 anos em desfavor
à medicina: "O homossexualismo é um engano da alma. O homossexualismo é um sintoma
de uma enfermidade em nossa personalidade". Para se ter uma idéia,
ejaculação precoce, impotência, frigidez e "homossexualismo", estão todos no
mesmo barco, sob o rótulo de "sintomas de uma personalidade que não se
resolveu". Nota: O Conselho Federal de Medicina proibiu
terminantemente qualquer médico ou psiquiatra de sequer tentar curar a homossexualidade
ou tratá-la como enfermidade, pois desde 1985, foi desconsiderado o artigo 302.0, da
classificação internacional, que a tratava como doença, sob pena de perder a licença
para o exercício da profissão. Exatamente da mesma forma que o Conselho Federal de
Psicologia proíbe os psicólogos de promoverem a tal "cura" de algo que
não é doença.
(Segundo fonte da Universidade
Federal do Ceará, o psiquiatra José Maria Nascimento Pereira lecionava no Centro de
Ciências da Saúde de onde aposentou-se em 27 de março de 1990)
Para finalizar os testemunhos.
Pessoas que tiveram sua vida transformada pela religião e que pregam que é
possível mudar. É nessas horas que surgem aqueles que, como eles dizem, "chegaram
ao fundo do poço". Soropositivos, viciados em drogas, alcólatras, garotos de
programa. E então, a palavra de Jesus "os curou"... Mas, e os heteros também
não vão ao fundo do poço?
Augusto
Andrade, ativista do grupo Estruturação, de Brasília, identifica isso
como mais uma manifestação de preconceito da sociedade. "Quando uma pessoa está em
dúvida em relação à sua identidade sexual, e vai a um psicólogo legal, que não é
homofóbico, ele vai conduzir a pessoa para a real inclinação dela, sem traumas
nem culpa. Quem força a barra para mudar os outros devia ser preso. Eles se
utilizam das fraquezas das pessoas!". Para ele, o destino da maioria é virar ex-ex-gays.
Terminam os testemunhos, mais música, oração e discursos inflamados. O pastor faz um
apelo para as pessoas que se sentiram mudadas de alguma forma, que sentiram o "toque
de Deus", para se aproximarem do palco e darem o testemunho.
Tudo termina às 6 horas da tarde, em uma grande oração, com todos se abraçando e se
beijando. Quem me abraçou bem forte foi meu recém-amigo paulista. Pegou o meu e-mail e
repetiu que tinha me adorado, olhando nos olhos...
Contou que teve um namorado, e que
amava muito o cara, mas não era amado. Sofreu muito por amor, por não ser correspondido.
Se sentia usado, maltratado. Ele associou uma experiência mal sucedida com o fardo de ser
homossexual, que pena... Mas a pergunta permanece? Até quando vai se permitir que estes
grupos conservadores, que se aproveitam de momentos de carência emocional de pessoas
sensíveis, gays e lésbicas, disseminem a culpa e os ideais homofóbicos?
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